






Morri ontem, com a boca cheia de palavras e os olhos tapados de imagens. Na ilusão que me restava, julguei-me renascida, em silêncio, para o suave cuidado dos outros, mortalhas limpas, mãos tratadas, ceroulas descartáveis tendo em conta eventuais incontinências durante a viagem. A vida é reles vista de fora. Lá estava o cartaz com a boneca nua, Agosto rasgado, a cadeira de pau santo com o gato, Clot, oferecido por uma vizinha esquizofrénica, toda arranhada, a boca sempre aberta num choro convulsivo, gengivas de fora, rosadas, pálidas, tumefactas, quatro dentes desalinhados e alguns outros, soltos, no maxilar inferior. Aftas, eu sei, ela sofria muito de aftas, andava todos os dias com um frasquinho de Piralvex na algibeira. Cheirava a alho à sua volta, bafo maior, bagas esmagadas na pedra da cozinha ou raspas sobre raspas para medicar os molhos do bife. O duque, marido não sei de quem, tinha igualmente aquela mania silvestre, presumindo que se defendia assim de suspiros, vampiros, encantos soezes dos males e modas na televisão nocturna, fantasmas promíscuos em casas assombradas, talvez como vinagre nas cenas onde as moscas fustigavam falas ou ombros desnudados. Casas velhas, sombrias e húmidas, casas de velhos trapos, só a Maria tocava no vinagre, ficara com o hábito desde Angola, porque lhe haviam dito que dessa maneira afastaria sempre os mosquitos, os de lá e os de cá. Um país pequeno tem irremediavelmente os seus pequenos mosquitos. E cheiros. Quando abriam a porta, esses cheiros dobravam, urina dos gatos, caca dos cães, indiciação rio apodrecendo na margem direita: apesar disso, ontem mesmo, com gente a entrar e a sair, todos teimavam em fazer de mim uma mulher virtuosa, de súbito com a beleza resgatada, cabelos encaracolados a preceito e uma seda espalhada por cima das mamas moles, barriga inchada, pernas engelhadas. Claro que o cheiro do lodo entrava sobretudo pela janela meio aberta a fim de afugentar o bafio da minha morte, aliás irrelevante se comparado com os perfumes daquelas mulheres magras que tagarelavam nos bancos de madeira, incómodos, gente patética, de ilíacos salientes, outrora dividida pelos amigos do chefe das Finanças, por vezes mais dispersa e pequena, fonte de amantes dos estivadores em Alcânara. Os estivadores mais antigos, aqueles que destilavam um suor vivo, azedo e cálido, todos os que, anos e anos atrás, ainda não haviam sido promovidos a pilotos de máquinas pesadas, fortes empilhadoras, gruas e guindastes, brinquedos que o Clot já telecomandava, metido na almofada para as dores lombares. Que desperdício, a almofada bordada pela minha avó. Ainda vejo as suas mãos recobertas de sardas, um pouco gordas mas de fina agilidade, usando linhas brilhantes que engatava em agulhas de máquina, furando e desfurando um linho bendito, esticado num bastidor de escala amovível.
Escultor João Duarte
edita medalha
para o British Art Medal Society do
A medalha vai ser posta à venda no mês de Março deste ano, sendo capa da MEDAL, revista do British Museum de Londres.
Irá fazer parte da colecção de medalhas do respectivo Museu.
Apresenta-se a ficha técnica com a memória descritiva assim como respectivas fotos
Título: Domus,Domus.
Técnica: Construída.
Material:Bronze e aço inox.
Diâmetro: 80 mm.
Memória Descritiva
Anverso
Talvez eu esteja de regresso à Domus, antes mesmo de o dia findar.
Que aconteça o que tiver de ser.
Deixo o vento conduzir-me à Domus.
Eu porém, irei ficar sempre no meu caminho na Domus.
Porque a Domus sempre me circunda.
Reverso
Os degraus da vida dão novas ligações, porque em todo o começo reside um encanto, que nos protege e ajuda a viver.
De degrau em degrau nos elevamos e nos aumentamos.



O Escultor João Duarte foi galardoado com a "J. Sanford Saltus Award for Distinguished Achievement in the Art of the Medal" pela American Numismatic Society.
A cerimónia de entrega de tão prestigiado galardão decorrerá em data a anunciar durante o congresso da FIDEM que se realiza em Glasgow nos dias 10, 11 e 12 de Julho de 2012.
