quem somos

QUEM SOMOS







O Casa Amarela 5B -Jornal Online surge da vontade de vários artistas, de, num esforço conjunto, trabalharem no sentido de criar uma relação forte com o público e levando a sua actividade ao seu conhecimento através do seu jornal online.

Este grupo de artistas achou por bem dedicar o seu trabalho pintorNelsonDias, https://www.facebook.com/pages/Nelson-Dias/79280420846?ref=hl cuja obra terá sido muito pouco divulgada em Portugal, apesar de reconhecido mérito na banda desenhada, a nível nacional e internacional e de várias vezes premiado em bienais de desenho e pintura.


Direcção e coordenação: Maria João Franco.
https://www.facebook.com/mariajoaofranco.obra
contactos:
franco.mariajoao@gmail.com
+351 919276762


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Wednesday, March 7, 2012

Rocha de Sousa em destaque








ROCHA DE SOUSA apresenta o seu útimo livro LÍRICA DO DESASSOSSEGO

Pelas 16 horas do dia 17 de Março no Hotel Real Palácio, 115 e galeria Prova de Artista,
rua Tomás Ribeiro LISBOA
apresentação: Prof.Hugo Ferrão
Editora UNIVERSUS









Morri ontem, com a boca cheia de palavras e os olhos tapados de imagens. Na ilusão que me restava, julguei-me renascida, em silêncio, para o suave cuidado dos outros, mortalhas limpas, mãos tratadas, ceroulas descartáveis tendo em conta eventuais incontinências durante a viagem. A vida é reles vista de fora. Lá estava o cartaz com a boneca nua, Agosto rasgado, a cadeira de pau santo com o gato, Clot, oferecido por uma vizinha esquizofrénica, toda arranhada, a boca sempre aberta num choro convulsivo, gengivas de fora, rosadas, pálidas, tumefactas, quatro dentes desalinhados e alguns outros, soltos, no maxilar inferior. Aftas, eu sei, ela sofria muito de aftas, andava todos os dias com um frasquinho de Piralvex na algibeira. Cheirava a alho à sua volta, bafo maior, bagas esmagadas na pedra da cozinha ou raspas sobre raspas para medicar os molhos do bife. O duque, marido não sei de quem, tinha igualmente aquela mania silvestre, presumindo que se defendia assim de suspiros, vampiros, encantos soezes dos males e modas na televisão nocturna, fantasmas promíscuos em casas assombradas, talvez como vinagre nas cenas onde as moscas fustigavam falas ou ombros desnudados. Casas velhas, sombrias e húmidas, casas de velhos trapos, só a Maria tocava no vinagre, ficara com o hábito desde Angola, porque lhe haviam dito que dessa maneira afastaria sempre os mosquitos, os de lá e os de cá. Um país pequeno tem irremediavelmente os seus pequenos mosquitos. E cheiros. Quando abriam a porta, esses cheiros dobravam, urina dos gatos, caca dos cães, indiciação rio apodrecendo na margem direita: apesar disso, ontem mesmo, com gente a entrar e a sair, todos teimavam em fazer de mim uma mulher virtuosa, de súbito com a beleza resgatada, cabelos encaracolados a preceito e uma seda espalhada por cima das mamas moles, barriga inchada, pernas engelhadas. Claro que o cheiro do lodo entrava sobretudo pela janela meio aberta a fim de afugentar o bafio da minha morte, aliás irrelevante se comparado com os perfumes daquelas mulheres magras que tagarelavam nos bancos de madeira, incómodos, gente patética, de ilíacos salientes, outrora dividida pelos amigos do chefe das Finanças, por vezes mais dispersa e pequena, fonte de amantes dos estivadores em Alcânara. Os estivadores mais antigos, aqueles que destilavam um suor vivo, azedo e cálido, todos os que, anos e anos atrás, ainda não haviam sido promovidos a pilotos de máquinas pesadas, fortes empilhadoras, gruas e guindastes, brinquedos que o Clot já telecomandava, metido na almofada para as dores lombares. Que desperdício, a almofada bordada pela minha avó. Ainda vejo as suas mãos recobertas de sardas, um pouco gordas mas de fina agilidade, usando linhas brilhantes que engatava em agulhas de máquina, furando e desfurando um linho bendito, esticado num bastidor de escala amovível.
Se morri ontem, ou na madrugada de hoje, ainda não chegou a hora dos meus amigos, honrados e já com gorjeta, dedicarem um tempo à leitura do meu testamento, uma página vulgar, sem linhas, onde achei por bem escrever algumas vontades, poucas, seguidas do elenco de pequeníssimos objectos de certo valor, memória daqueles anos de ilusão e fome. E as túnicas que absorviam tetas e barriga, um cair até aos tornozelos, romano, imperial, próprio para desenvenenar a vida e a melancolia falsamente cosmopolita de Lourenço Marques, colonial até ao pescoço, com senhoras que arrastavam carregadores ajoujados ao peso das malas. Era uma cegueira pelo saltinho à África do Sul, picando o chão híbrido com sapatos pongteagudos à frente e atrás, certamente brancos, traçados por faixas aos pares, dedos de unhas pintadas, encavalitadados pelo frio que sobrava das piscinas e das normas patéticas, apertadas, publicamente irreprimíveis, instauradas num grotesco espavento de classe.
Quando me lembrei desse comportamento ilusório e mesquinho, reparei de novo na ausência dos meus filhos. Um já é bem grande, outro mais pequeno, ainda alourado, que estuda arquitectura mas não cessa de viajar. É de uma geração ainda africanizada pelas tonalidades do sul, gente das motas, dos carros, castigadora do corpo e emigrando, com a bebida, para temporadas de estudo em aldeias remotas da Índia ou para recolhas de mestrados sobre o desenvolvimento do terceiro mundo. Agora queria chorar e não posso. Talvez eu tenha sido a mãe ausente, sonhando pela pintura a gravidez dos bosquímanos, bebendo e bebendo até saber que jantar me faltava cumprir. Médico, o Ilídio, meu marido, depressa fechou a porta da assistência medicamentosa e o pesado incuprimento de um sexo menos longínquo. Ainda ontem pensei nele. Sentia muito frio dentro de mim e a Europa fica cada vez mais distante das Terras do fim do Mundo ou da antiga Cidade da Beira. Os meus próprios amantes, os mais esbatidos e os que me espreitaram como ornamento, ou estão já mortos ou acabaram por esquecer o nosso melhor tempo abjeccionista. O último marido institucional, a quem estive mais tempo ligada, o Ilídio, voava de congresso em congresso, parava dois dias em Portugal para ver os avôs, e eu quase desaprendera a data (ou as datas) do seu regresso. Ele trabalhava muito. Mas, além disso, já percebera o nome, a quantidade e a qualidade dos meus devaneios. Foi então que me deixei encalhar em cavalheiros de oportunidade, o melhor demasiado activo em ficar com os meus quadros (cada vez menos) e o outro perdido em gentilezas provincianas, capaz de tratar da cozinha e soprando o pior mau hálito que se possa imaginar. Era
tonto, comunista, ocupado, deixou-me de pé à esquina de Paço de Arcos, apropriadamente, com casa e sem um cêntimo. Como poderia apelar aos meus filhos? Parecem nem sequer usar telemóvel, nem papel, nem palavras. O que esteve na Dinamarca comprou uma mota Honda e levou para casa uma moça de belo recorte. Diz que essa é só uma parte da base para o sucesso. E se calhar tem razão? O outro, mais novo, desaprende o português e escreve mails sem conta para terras bem longe da Nova Zelândia. Fala pouco, fala de longe, talvez seja timidez. Chorar é um remédio precário e por vezes não passa da mentira que acumulámos dentro de nós. Mentir, aqui, é
dizer a verdade. Enfim, eles estão lá, eu morri aqui.

Não vejo nada. Ou as imagens que vejo não pertencem ao quadro que me rodeia. Sombras, o punho de uma camisa. Murmúrios sempre, mas isso já me acontecia em vida. Ouvir nunca foi o meu forte, mas era sobretudo uma questão de conveniência e de fraca auto-estima. Há um ruído mais espesso longe deste espaço: julgo perceber que se trata de manobras no porto, atracamentos, guindastes, torpor de motores. Eu oiço sobretudo com os olhos e cheguei porventura áquele instante em que não posso escolher as imagens e o sentido delas. Estou a lembrar-me do Clot, coitado, e nem sei se fugiu, se alguém o terá adoptado. Era um grande companheiro e dormia comigo numa cama japonesa, emplumada. Também não posso expelir as palavras que me enchem a boca, apesar de pensar que são minhas, testamentárias ou lidas em páginas azuis de despedida. Como nos filmes antigos. E os olhos, em nesga, talvez atados por Deus a uma cegueira como aquela que Saramago inventou, apenas captam movimentos preguiçosos, o fundo ilusório da caverna de Platão, entre fracturas onde passam gaivotas e um vago jardim com grande árvores e muitos pombos tratando da vida. É pouco para fechar uma vida ou mesmo a porta da rua de qualquer casa.
Há pouco, num zumbido de orações, vieram tratar-me do caixão. A minha vontade era dizer-lhes que não fizessem nada, que me deixassem ali, num grande sossego, tapando tudo, devagar, incluindo a descida à terra e o encobrimento desta cápsula de madeira envernizada de perfumes. Se calhar é disso que se trata, um ranger de pregos arrancados não sei donde, chaves de fendas chafurdando no encaixe das pegas metálicas. Cristo teria apreciado um serviço assim, alguém que logo o descravava da cruz, lhe desenrolava as cordas, dizendo-lhe ao ouvido que ninguém sabia do lugar para onde o levavam: aó seria lavado, curado e induzido no sono. Mais tarde, não sei exactamente em que altura, houve quem falasse em ressurreição, os mortos resgatados do céu ou do inferno, os santos redimindo as suas faltas, a sua vida inicialmente idiota, revendo o mundo, olhando os seus companheiros de outrora. Nãi sei bem, tanto mais que morri ontem. Mas este trato com o céu, trajectos entre o além e o aquém, tudo isso me faz confusão, não me deixa pensar nem fazer as últimas escolhas. Não vejo os mortos, reinvento os familiares. A minha mãe podia representar, e bem melhor, o papel da senhora de Fátima, com a vantagem de unir o sentido dos segredos à bondade humana oferecida aos povos deslocados de África. Meu pai, entretanto atarracado e com uma orelha cortada, como van Gogh, desenhava casaa e ralhava comigo, dizendo que eu não ligava nada ao estudo e me tornara leviana, com desejos compulsivos, egoista, incapaz de aperfeiçoar desenhos, cópias, rascunhos, pinturas. O meu irmão, sonso e tímido como um herdeiro sem trono, juntava os bicos dos pés e escondia o sorriso que lhe fazia tremer os lábios. Olhos redondos, amaciados, sonsos como os da Gioconda.

Risquei papéis durante toda a minha vida. Quase até ontem. Não tinha forma de os riscar mais e bem. Por isso os rasgava em muitos pedaços, acabando mais tarde por colar esses formas umas à outras, umas sobre as outras. E tudo me parecia o interior da minha cabeça, sombras, escovas e rolos para o cabelo, verniz das unhas, dedos sangrando, os espinhos que ornamentaram a cabeça de Cristo, pequenos animais a andar de lado, como os caranguejos, e as conchas e a água dourada, e as pedras roladas, coisas afinal femininas, apesar de meu pai insistir no estado em que me via, no desapego de mim — mulher excessiva e masculina na aprendizagem da sexualidade, atravessando flores e a própria família, óbvio ramo que não era dele, viera dos sonhos e lendas de minha mãe, dourada sempre, lenta, de olhos azuis, lenta e triste, penalisando-se de coisas que o destino já apagara, bordados, linhas, aguadas, alunas como filhas debruçadas sobre os bastidores redondos, a picar mensagens relativas à benaventurança e ao direito das gentes à vida e à paz. Parece uma visão de anjo mas não é — e ela não tinha asas, teria mais tarde, presumo, mas acabou por morrer, incompreendida, com as pernas roxas, o coração enleado em defesas orgânicas, vasculares, enquanto o fluxo diabético, abissal, se foi tornando incontrolável, a par, por fim, da falência dos orgãos estruturais.

Estou a caminho do cemitério, não sei onde, mas estou morta e sinto-me tranquila. Os anjos são masculinos ou não têm mesmo sexo? Minha mãe percorria as senzalas e procurava, de uma conversa vulgar, criar sinais legíveis sobre a vida, a família, os filhos, a história dos povos, o seu papel no mundo. Era um catoliscismo sem pompa nem circunstancia, não dependia da missa nem de outras liturgias. Talvez ela tivesse reencarnado de um verdadeiro missionário.
Agora sim, estão a baixar o caixão, nave estreita e em madeira, que entra na terra fresca da cova e aí fica, autónoma. Choram não sei bem onde. Pasadas de terra começam a cair sobre o meu rosto protegido. Mas é como se a minha boca fosse bloqueda, completamente entulhada de papéis e terra. Nos olhos, agora, só passam, contra o escuro, imagens fragmentadas de gente conhecida, familiares, tios, primos, amigos correndo, ao longe, como se holofotes rasgassem a noite e mostrassem, só por instantes, um rosto espantado ou um animal a correr. Nesse minuto nunca vi nenhum anjo, nem pessoas que conhecera através de velhos retratos.
Pela primeira vez em muitos anos, não sinto o corpo. Esta suspensão é irrepreensível. Será este o lado sensível da alma? Apenas tenho a certreza de que morri ontem. Ou hoje de madrugada.





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Rocha de Sousa é hoje um dos maiores escritores portugueses configurando uma poética muito própria que faz da sua obra escrita um valor singular e único no panorama literário.


Importante,assim,se torna conhecer e reconhecer a "escrita" deste Grande Homem da nossa cultura.

Thursday, February 9, 2012

TÀPIES


Coleção

A coleção da Fundació Antoni Tàpies é constituída em grande parte por doações de Antoni Tàpies e Teresa. Há algumas exceções, como o trabalho em Marro-cinza ocre(marrom-ocre em cinza, 1962), doado por David K.Anderson, ou cerâmica painel Trespeus (Trébede, 1985), instalado no telhado da Fundação, doado por Daniel Lelong.

Além disso, Antoni Tàpies e Teresa aumentam a cada ano a coleção com um novo trabalho para o ano. Assim, a recolha é mantida em crescimento contínuo.

Incluindo pinturas, esculturas, desenhos, livros e estampas, a coleção contém amostras de todos os aspectos da atividade artística e Tàpies de diferentes tipos, técnicas e materiais utilizados pelo artista. A coleção inclui uma seleção de desenhos e retratos dos anos quarenta, um importante grupo de obras matéricas anos cinquenta e sessenta, uma representação significativa de objetos baseados em obras de finais dos anos sessenta e setenta, bem como obras feito com espuma de borracha ou spray, esculturas em argila refratária e verniz dos anos oitenta, e também objetos e esculturas que foram criados Tàpies desde os anos noventa, experimentando novos materiais, tais como folhas de metal, às vezes usado como suporte pictórico , ou bronze.

Os primeiros trabalhos de Tapies mostrar o caráter primitivo forte associada à arte Dadá e crianças ou doentes mentais, e, portanto, perto de Art Brut. Além disso, essas obras que, em alguns casos anunciem seu trabalho posterior com os materiais também revelam algum caráter simbolista, especialmente na importância que atribuem à alegoria do mito e metáfora. Obras deste período são Zoom (1946), uma das mais antigas peças da coleção, Cap i bandeira (Cabeça e Bandeira, 1946) e Cruz de papel de Diari (Cross jornal, 1946-1947).

Durante os anos quarenta , em reação à arte conservadora liderada pelo regime de Franco, incluindo muitos jovens artistas vem um interesse em Surrealismo, que foi o último movimento da força de vanguarda na Espanha antes da Guerra Civil. Tàpies período surrealista começou em 1948 com a fundação da revista Set al Dau, juntamente com outros artistas e escritores. Nas obras deste período encontramos referências a Miró, Ernst e Klee. No caso de o trabalho Parafaragamus (1949) Miró tipicamente observado com os aspectos da arte Klee elementos.

Entre 1949 e 1950, Tàpies começa a adquirir uma consciência social cada vez maior. Esta nova atitude é parte de uma ampla controvérsia entre os defensores de uma arte engajada e simpatizantes de uma arte avant-garde, que encontra seu clímax durante a estadia de Tàpies em Paris entre 1950 e 1951. A partir deste período data a série de desenho animado Historia Natural(Natural History, 1950-1951), mostrando a evolução da natureza, a sua metamorfose e transformação em uma civilização moderna e da luta de classes. As obras deste período combinado com um personagem realista, mas surreal. Este é o caso, por exemplo, i maleïts O barbeiro dels dels elegits (Barbershop dos condenados e dos eleitos, 1950) ou colagem de papel moeda (colagem de papel-moeda, 1951).

De 1952 a 1954 , a arte toma um rumo Tàpies abstrato drasticamente em reação ao período anterior, o protesto de forma aberta e social. Durante estes dois anos, seu trabalho se concentra em aspectos plásticos, tais como forma e cor, ecoando as idéias que estão ganhando terreno neoplasticists nos círculos artísticos da Europa. No entanto, essas experiências um pouco passado no caminho de Tapies, como o seu interesse vai além da mera expressão formal, e logo o artista começa a trabalhar com novos materiais como pó de mármore, areia e terra cores, entre outros.Esta linha de trabalho dá origem a um novo tipo de obras que são conhecidos genericamente de pintura de material .

Nos quadros de matéria , os materiais deixam de ser simples meios sujeitos à expressão de uma ideia de se tornar a ideia em si.Assim, existe uma identificação completa entre a matéria e forma, entre conceito e idioma. Essas obras se tornam superfícies opacas, paredes em que o artista inscreveu seu graffiti e colar formas de objetos ou pessoas. Identificação do artista com a obra pelo nome expressa um profundo desejo de romper o dualismo ocidental e derreter-se o assunto em um relatório contínuo.
Durante os anos do pós-guerra surgiu um interesse no assunto entre os artistas de ambos os lados do Atlântico . A consciência da importância da bomba atômica e as novas descobertas científicas gerar uma forte curiosidade sobre ciência, novas idéias sobre o espaço-tempo ea matéria, assim como invenções como o microscópio eletrônico oferece uma nova visão da natureza .
paralelo, Tapies desenvolveu um interesse crescente na filosofia oriental, por sua ênfase sobre o material, a identidade entre o homem ea natureza e sua negação do dualismo em nossa sociedade.

Muitas das obras de Tàpies anos cinquenta e sessentamostrar um mundo ainda em formação, fósseis de impressões digitais natureza petrificadas, e imerso em uma antiga abandonada. Tàpies cree que a noção da matéria deve também ser entendida a partir da perspectiva do misticismo medieval através dos escritos de Arnau de Vilanova, de Enric Villena e magia Ramon Llull-like, mimese e alquimia. Neste sentido, consideramos o artista como um "alquimista do espírito", alguém que pode transformar o nosso interior além de nós mesmos.
Este conceito é alquimia toda a sua obra. Também durante estes anos, Tàpies irá desenvolver uma série de imagens, normalmente retiradas de seu ambiente imediato, que aparecem em diferentes estágios de sua evolução. Muitas vezes, a mesma imagem, bem como a ser representado de diversas formas, vai adquirir uma série de significados diferentes que são sobrepostos uns aos outros.
Assim, Antoni Tàpies nos dá um mundo "materialista". Sua mensagem centra-se na apreciação do que é geralmente considerado material, baixo repulsivo (não por coincidência, Tàpies muitas vezes escolhem temas tradicionalmente negligenciados como desagradável e fetichistas, como um ânus defecando, um sapato esquerdo, um braço, um pé , etc.) Matéria é o elemento substancial da vida. Uma conseqüência dessa rejeição do ideal para o material é a noção de "relatório", que visa a Georges Bataille cancelar todas as categorias formais:. O "relatório" anula a distinção entre natureza e cultura
O processo técnico Tàpies criada na qual as pinturas matéria traduz essa noção do "relatório". Primeiro cobrindo o substrato com uma camada de verniz, e antes de secar, aplica-se pó de mármore, areia e outros materiais ou pigmentos. Em seguida, adicione tinta em várias áreas, criando uma figura, objeto, ou apenas uma mancha. Quando as camadas últimos começam a secar, o material é cracking e mostra os seus componentes estruturais. Às vezes, o artista acentua essa impressão, raspando a tinta em alguns lugares. A coleção da Fundació Antoni Tàpies tem uma ampla representação de obras que datam deste período: O crit. Eu Groc violeta (O Grito. Amarelo e Violeta, 1953), i pintar Terra (Terra e pintura, 1956), i blava tinta rosa (pink e tinta azul, 1959),Formulário quadrat preto em cinza (preto no formato quadrado cinza, 1960) e Cordes Relleu amb (Socorro com cordas, 1963), entre outros.

No final dos anos sessenta e setenta , Tàpies intensifica compromisso político e trabalhar com objetos. Sem dúvida, este interesse renovado na linha de assunto com os esforços da Arte Povera na Europa e nos EUA pós-minimalismo, embora não seja mostrado objetos Tàpies como elas são, mas deixou sua marca e os incorpora em sua língua. Ao contrário do que acontece em muitas obras de Arte Povera ou pós-minimalista, em geral, os objetos não são Tàpies discursos em um espaço específico, mas são absorvidos pelo quadro que incorpora pictórica, como observado no Palla chicote i ( palha e madeira, 1969) ou no quadro-Pantalons (calças na armação, 1971).
Enquanto os anos sessenta e setenta, seu trabalho tem uma sensibilidade especial para o objeto, nunca falha Tàpies pintura ou trabalho gráfico. Logicamente, pintura e gravura ao longo dos anos adquiriu uma forte política social e à memória de Salvador Puig Antich (Em memória de Salvador Puig Antich, 1974) eAssassins (Assassinos, 1974).

No início dos anos oitenta , com a restauração do Estado de direito em Espanha e à luta política, o interesse do tecido como suporte Tàpies ganhou força renovada. Este novo período de desenvolvimento Tàpies artísticos coincide com um retorno à pintura resultou em amplas da arte na Europa e nos Estados Unidos.
Este retorno para Tàpies pintura comporta no uso de dois procedimentos não são inteiramente novo, mas agora assumir uma destaque especial. A primeira é a pulverização com objetos escondidos em aerossol sob um pano. A segunda é a manchar a tela ou madeira com suporte de laca, tendo várias formas para ser manipulado pelo artista, mas que nunca perde o seu relatório. Este é o caso de obras como i rugas Efecte d'Taronja (Efeito de rugas e Orange, 1979) e em negre Sinuós Vernis (no enrolamento laca preta, 1983).

Além disso, no final dos anos oitenta , o interesse em Tapies cultura oriental parece ter aumentado. Da mesma forma, Tàpies também foram atraídos pela nova geração de cientistas, David Bohm de Rupert Sheldrake. Esses pensadores têm ajudado a proporcionar uma nova visão do universo em que você entender a matéria como um todo sob constante mudança e formação.

As obras dos últimos anos são principalmente uma reflexão sobre a dor, tanto física quanto espiritual, entendida como parte integrante da vida. Influenciado pelo pensamento budista, Tàpies acredita que o conhecimento maior da dor pode atenuar os seus efeitos e, assim, melhorar a qualidade de vida. A passagem do tempo, que sempre foi uma constante na obra de Tàpies, assume novos matizes, vivida como uma experiência pessoal que facilita uma maior auto-conhecimento e uma compreensão mais clara do mundo circundante. Neste sentido, é interessante notar também a marca deixada por certos eventos em seu trabalho hoje, e como a guerra na ex-Jugoslávia ou as matanças e deportações de Ruanda.Assim, nas obras deste período são imagens freqüentes de mortalhas, corpos e caixões. Algumas das obras do acervo dos últimos anos são Parla, Parla (Falar, falar, 1992), Cos i filferros(Corpo e Wire, 1996) e montes de terra Quotas (dois lotes de terra, 2001).

Juntamente com sua pintura e objectual , Tàpies desde 1947 tem desenvolvido uma intensa actividade no campo da arte gráfica. Neste sentido, é notável o número de livros de colecção do artista, em estreita colaboração com poetas e escritores como Alberti, Bonnefoy, Bouchet Du, Brodsky, Daive Brossa, Dupin, Foix, Fremon, Gimferrer, Guillen Jabes , Mitscherlich, Paz, Takiguchi, Ullán, Valente e Zambrano, entre outros. A parte inferior do colecção contém cópias da base para quase todas as edições existentes.

Trabalho Antoni Tàpies de um corpus de discurso estético coerente e manteve-se praticamente inalterada desde 1954. Neste sentido, não se pode falar de uma evolução formal si, mas também a consolidação de bases que dão origem a uma produção unitária e consistente.

in http://www.revistadearte.com/2012/02/07/fallece-antoni-tapies/?utm_source=feedburner&utm_medium=email&utm_campaign=Feed%3A+Revista-De-Arte-Logopress+%28REVISTA+DE+ARTE+-+LOGOPRESS%29

Fundació Antoni Tàpies, Aragó 255, 08007 Barcelona | t +34 934 870 315 | f +34 934 870 009

© Lluís Bover

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Monday, February 6, 2012

Rosa Azevedo_eventos/LIVROS DE CABECEIRA



Caros todos,



eu e o Ricardo Ribeiro estamos a organizar na livraria Book House do ISPA em Lisboa um novo ciclo de eventos com o nome LIVROS DE CABECEIRA. Nós arranjamos um convidado, ele arranja outro. E falam dos livros com que dormem e dos livros que comem ao pequeno almoço. Vai ser de 15 em 15 dias e já temos algumas surpresas preparadas. Eis o primeiro:LIVRO DE CABECEIRA com Pedro Vieira e Samuel Velho9 de Fevereiro, 19hBook House, no ISPA, Rua Jardim do Tabaco, 34, Lisboacom que livros dormem eles? que livros comem ao pequeno almoço?aqui estão eles:



Evangelho Segundo Jesus Cristo, Saramago



O Processo, Kafka



A Espuma dos Dias, Boris Vian



Lunário, Al Berto



A Boca na Cinza, Rui Nunes



Musicofilia, Oliver Sacks



A ilustração em anexo, claro, é do Pedro Vieira.

Um bem haja pela ilustração, pela presença e também, claro, por nos trazer o Samuel.

Mais informação, resumos e próximas sessões a seguir em www.estoriascomlivros.blogspot.com


Tuesday, October 11, 2011

António Inverno







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ANTÓNIO INVERNO


1944 - Nasceu em Monsaraz, a 27 de Outubro. 1956 - Chega a Lisboa.1958 - Matricula-se na Escola António Arroio.1964 - Conclui o curso de Gravador Litografo. Teve como principais mestres, Roberto de Araújo, Manuel Lima, Estrela Faria e Abreu Lima. Trabalha, entretanto, no atelier de Jorge Barradas na Fábrica da Viúva Lamego.1966 - Segue para a Guiné em serviço militar começando, entretanto, o seu contacto com Africa.1968 - Regressa a Lisboa. Trabalha com Rogério Ribeiro e Mário Rafael. Colabora na decoração de interiores do edifício da actual sede da Gulbenkian.1969 Ingressa na equipa de Thomas de Mello, no sector gráfico na Feira Internacional de Lisboa.1970 - Colabora na "Seara Nova" onde promove edições de serigrafias de artistas portugueses contemporâneos.1971 Instala um atelier na Avenida 5 de Outubro. Realiza maquetas, destinadas a publicações de vários organismos e empresas.1972 Inicia a actividade de serígrafo. Cria um atelier exclusivamente consagrado à serigrafia na Avenida Conde Valbom. Colabora com Júlio Pomar, Vespeira, Charrua, Espiga Pinto. Eduardo Nery. Maria Keil, Francisco Relógio, Jorge Vieira, Costa Pinheiro, Eurico Gonçalves entre outros.1973 - Sócio fundador do Centro Comunicação Visual A.R.C.O.. Aluga um espaço na Rua da Emenda onde (ainda permanece) no qual prossegue a sua carreira como serígrafo.1974 - Participa através do País nas Campanhas de Dinamização Cultural. Tem parte activa na elaboração de cartazes e organização de espectáculos teatrais e musicais. Esta acção prolongou-se até 1975.1976 - Membro fundador do Centro Cultural de Almada.1977 - Organiza e lecciona cursos de serigrafia através de quase todo o país, destinados a professores de Educação Visual, bem como a animadores ligados às autarquias. Esta acção prolongou-se até 1979.1982 - No âmbito do intercâmbio com África efectua sucessivas viagens, sendo entretanto solicitado, e entre outras tarefas, para seleccionar jovens artistas aos quais são atribuídos bolsas de estudo nos principais centros culturais da Europa. Esta acção prolongou-se até 1985.1986 - Forma novos colaboradores no atelier na Rua da Emenda. Dá assistência a bolseiros da Fundação Calouste Gulbenkian. Esta acção prolongou-se até 1990.1993 - Criou o Centro de Serigrafia António Inverno.1994 - Colabora em vários Centros Culturais no Alentejo, promovendo exposições de artes plásticas de âmbito nacional.2001 - Criou o cenário para os estúdios da RTP Internacional. Convidado para criar e executar um painel da estação do metro do Arteiro.
Principais Exposições Individuais
1985 - Galeria Atelier 2.1987 - Pintura – Galeria Barata, Lisboa. 1990 - Clube Taurino Vila-franquense.- Pintura – Galeria Artela, Lisboa. 1991 - Centro Cultural de Santarém.1992 - Monsaraz Museu Aberto.1993 – Galeria - Bar Sintra .1995 - Galeria Municipal da Amadora.1996 - Exposição comemorativa 25 Anos de Serigrafia, Palácio Galveias Lisboa.- Exposição comemorativa 25 Anos de Serigrafia, Club Setubalense e Academia de Música e Belas-Artes de Setúbal.1997 - Galeria São Francisco.1998 – Cultur art (Foyer Européen).Galeria Municipal da Amadora. Galeria Municipal de Setúbal. Galeria C.M. Funchal.Galeria Bento Teresa Sargento, V. V. Ficalho.1999 - Centro Cultural de Santarém.Escola Secundária Alves Redol, V. Franca de Xira. Cine Teatro de Serpa. Galeria Artela, Lisboa.2001 - Centro Cultural de Santarém. ArtEmpório Galeria, Lisboa.2002 - SeteComArte Galeria. - Galeria
c@fé, Serpa.2003 - Pintura Galeria ArtEmpório.2003 - Pintura – Instituto de Saúde Mental, Setúbal.2003 - Pintura – Galeria C.M. Salvaterra de Magos.
Principais Exposições Colectivas
1985 - Pintura - Galeria Novo Século, Lisboa.1986 - Pintura - Galeria São Bento, Lisboa.1987 - Pintura - Salão de Pintura Contemporânea, Sesimbra.- Galeria Atelier 2, Lisboa. 1988 - Galeria Mirón, Lisboa. 1992 - Galeria de Setúbal.- Pintura - Câmara Municipal de Torres Novas. 1994 - Pintura - Centro Cultural de Barrancos.Núcleo de Artes de Setúbal.Pintura Soc. Coop. de Grav. Portuguesa.Pintura - Museu Alberto, Monsaraz.Homenagem a Estrela Faria.Pintura Junta Freg. de Casais (Apoio a Bombeiros). 1995 - Pintura - Galeria de Vila Franca de Xira - Homenagem a Victor Mendes.1997 - Galeria Movimento de Arte Contemporânea. 1998 - Galeria Leo. Porto.- Palácio D. Manuel, Évora.1999 - Galeria Movimento de Arte Contemporânea.2000 - PriceWaterHouseCoopers / ArtEmpório Galeria, Museuda Patriarcal, Lisboa.Castelo de Beja.Galeria Samora Correia. 2001 - Galeria EDIA.ArtEmpório Galeria, Lisboa.Galeria da Direcção Geral da Administração da Justiça.Galeria Municipal de Moura.2002 - C.M. de Morforte. 2002 - Galeria de Morsaraz.2003 - XVIII Jornadas dei Património de Ia Comarca de IaSierra, Huelva Espanha.2003 - Galeria Vila Franca de Xira - Semana de Cultura Taurina.2003 – Centro de Arte Contemporânea da Amadora




Biografia
Citado em obras sobre Vieira da Silva, Manuel Cargaleiro, Maluda, Júlio Pomar, José Guimarães, entre outros artistas a propósito das serigrafias que executou.



Referências Criticas
Eurico Gonçalves, José Luís Porfírio, António Valdemar, Rui Mário Gonçalves, João Pinharanda, Margarida Botelho, Alexandre de Melo, Mário de Oliveira, etc., dobre actividade de serígrafo e de pintor.



Homenagem e Condecorações
Membro efectivo da Academia Nacional de Belas-Artes. Homenagem, em 1986, na Galeria de S. Bento. por numerosos artistas ligados à serigrafia e a outros domínios da criação plástica. Comendador da Ordem do infante D. Henrique. 1995 Prémio nacional de Pintura da Academia Nacional de Belas-Artes.



* * *«O TEMPO SÓ ESTRANGULA QUEM NÃO AMA»


Diga-se (ou não se diga), eu escrevo – pelo que sei – que António Inverno é (para além de ser, técnica e esteticamente, um notável e criativo artista plástico) um dos pioneiros da serigrafia de arte, moderna e contemporânea, em Portugal, considerando-o como um dos mais sensíveis “analogic graphic annalists portugueses”.
António Inverno é, como afirmo, para além de um notável artista plástico, com obra própria e representativa, um divulgador generoso da obra de inúmeros autores de nomeada e jovens revelações das gerações de 50 a 90, superando lacunas e acrescentando pesquisa e inovação experimental à sua formação original de Gravador Litógrafo, adquirida na Escola António Arroyo (1958-64), onde apreendera os ensinamentos de notáveis mestres .
O seu aprendizado prossegue-se, posteriormente, com Jorge Barradas , em seguida, com Rogério Ribeiro e Mário Rafael, depois, com Thomas de Mello e, mais tarde, com Lupi Manso .
Em 1970, promove edições serigráficas de algumas obras exponencialmente importantes de artistas portugueses contemporâneos, na "Seara Nova", assim precedendo uma actividade profícua que o notabilizaria, como serígrafo de arte, sobretudo valorizadas por ligações que intensifica (a partir de 1972).
Quando, em 1993, funda o CSAI (o seu próprio Centro de Serigrafia) António Inverno acabaria, portanto e, apenas, por (re)baptizar, formalmente, uma instituição empresarial privada, na qual se consubstancia o registo de marca duma expressão original (uma espécie de copyright), adquirida e, consolidada, no mercado cultural, periférico e emergente, alicerçado no know-how especializado, que adquirira, na modalidade e, até então, se sedimentara, no primeiro e mais conceituado atelier português do género, por si mesmo «inventado».
Desse modo, ficaria, o seu CSAI, acreditado, para a posteridade, pela compactação de duas décadas de experiência ímpar, na criação inovatória e na produção de estampas analógicas de invulgar valor e qualidade, que constituem peças documentais de genuinidade autenticada, criaram nomeada …gerariam descendência e documentam peças históricas de valor autoral certificado, enobrecendo o campo da serigrafia de arte.
Ao longo da década seguinte , prosseguiria a edição de centenas de peças, em séries numeradas e assinadas fidedignas , (re)criando (quando não valorizando) – pela expressão cromática, técnica e tecnológica, da sua linguagem serigráfica (silk-screen) – peças matriciais originais de autores contemporâneos, levando a cabo a missão meritória de divulgação da imagem de obras únicas e de autores representativos da contemporaneidade cultural das artes plásticas portugueses do séc. XX.
Seria, possivelmente, desnecessária, esta breve abordagem histórica, se, acaso, existisse, em Portugal, o hábito salutar de registar tudo quanto é importante no domínio da Cultura e, em particular, no âmbito das Artes Plásticas e Visuais, para que qualquer homenagem, a um artista vivo, não rescendesse (tão assim) a uma espécie de reminiscência obituária… intróito passadista indispensável ao estabelecimento de coordenadas do presente …mas, a ignorância a que – por sistema – os valores humanos são votados, entre nós, impõe este tipo de “actualização do carácter cultual das nossas memórias”, ainda – e, sobretudo – quando se trata de homenagear alguém que dedicou o seu passado e o projecta, no presente, com a persistência e a força anímica da sua própria natureza, como acontece com António Inverno.
Desenhista compulsivo e perfeccionista, pintor autoexigente e analista gráfico-analógico, cuja percepção e sensibilidade se evidenciam na sua obra, António Inverno é um daqueles raros seres, portadores de um sentido peregrino de perguntador vigilante, de um talento iniciático e da incomum energia criativa onde se estigmatizam os valores axiológicos da dádiva e da dúvida, da compartilha afectiva e da solidariedade humana. A estética e a poesis fervilham, simultaneamente, na essência da sua convivialidade pródiga e prodigiosa, gerando estranhas sinergias anímicas, catapultando as ideias, os conceitos e as noções por que se tecem as mais enriquecedoras aquisições mentais, do pensamento intelectual-emocional que dá forma à fala humana e sonha a perpetuidade da espécie, neste planeta e neste “país de poetas de costas-voltadas para o mar”.
Quando, há décadas, o conheci – a parsecs da distância de hoje, no Tempo – vivia entre nós, ainda, o Fausto Boavida …e o nosso calendário marcava os anos sessenta. Algo teve, porém, então, assinalável similitude com a postura de uma mesma relação «dramática de cumplicidades mútuas entre brancas casas e ruas de xisto envolvidas em muralhas, no alto do monte onde se ergue Monsaraz e nasceu António Inverno», como, mais recentemente, Silvestre Raposo refere, aludindo ao seu primeiro «contacto com obras suas.» […] afirmando, também «que a sua pintura possui a força e a riqueza da força de viver. Que acompanha a herança da utopia, do sonho do seu Alentejo. Que essa sua pintura possui um movimento constante, que reflecte a paixão permanente com que encara a vida e tem as cores da honestidade, da humildade e da fraternidade que pautam a sua existência.»Essa será a mesma força, a um tempo telúrica e cósmica, que Luís Serpa Soares salienta e me permito reiterar, transcrevendo-lhe as palavras: «o seu "apaixonamento" permanente, em cada dia, em cada momento, que o levam a orientar a sua vida por uma constante solidariedade para com os outros. Quantas vezes já o vi, mesmo com sacrifício, estender a sua mão para acorrer a quem lhe bate à porta com um pedido de ajuda. Por isso, esta sua grande dimensão humana, sublinhada em tudo quanto dele se tem dito e sobre ele se tem escrito, está patente na sua obra: na afición apaixonada com que pinta a nobreza do touro, e nos permite compreender a afirmação de Picasso, quando diz que “os touros são anjos com cornos”; na presença apaixonada de uma causa que é a sua, e que vemos na esquadria de todas as suas telas; na paixão irresistível pelo seu Alentejo, a dominar a sua temática.» […]
Por isso e por razões outras – talvez, como Anthony Velonis9 – António Inverno «que é o pai da serigrafia em Portugal» , prestou assistência a bolseiros de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian, tem apoiado vários Centros Culturais no Alentejo, organiza e lecciona (até 1979), cursos de serigrafia, destinados a professores de Educação Visual e a animadores ligados às autarquias, por quase todo o país e, no âmbito do intercâmbio cultural com África, fez viagens sucessivas, solicitado para promover a selecção de revelações artísticas , a muitas das quais viriam a ser atribuídas bolsas de estudo, em centros culturais europeus (1982-85).
Pode – lamentavelmente, como tantas outras – não ser, a bibliografia passiva de António Inverno, proporcional à sua indiscutível importância cultural, conquanto o seu nome e a sua obra não deixem, todavia, de se ser referenciados, quer como pintor e artista plástico, quer, sobretudo, enquanto agente cultural e co-autor de serigrafias, executadas sobre originais matriciais de autores que, à sua maestria, confiaram tal missão. Em todo o caso, são inúmeras e isentas as recensões e referências criticas de que é objecto, enquanto artista plástico (pintor e/ou serígrafo de arte) sendo, genericamente, abordado como homem de cultura e objecto das mais altas distinções .
Privilegia-me a honra da solicitação deste texto, congratulando-me pelo acto de justiça com que, nesta hora, se pretende homenagear o seu trabalho, a sua pujante vitalidade, a nobreza do seu carácter íntegro, de Homem leal e solidário, porque, ipso facto, as suas palavras, pintadas e escritas, são Arte …e «o tempo só estrangula quem não ama».



José-Luis Ferreira – Caramulo, 2008-03-12

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António Inverno



Defensor incondicional da liberdade

Um defensor incondicional da liberdade, cria e dinamiza projectos culturais por onde passa. Partilha o que sabe com a naturalidade com que respira. Fundou instituições como o Centro de Comunicação Visual A.R.C.O. e o Centro Cultural de Almada. Nasce como serígrafo para salvar a Seara Nova e hoje é um homem de destaque internacional na serigrafia, pintura e gravura. Trata por tu os grandes da arte e da política. Actualmente, entre outras actividades, é professor na ESE de Beja.



António Inverno nasceu em 1944 em Monsaraz.


Em 64 conclui o curso de Gravador Litografo na Escola António Arroio.


Teve como principais mestres, Roberto de Araújo, Manuel Lima, Estrela Faria e Abreu Lima. Trabalhou no atelier de Jorge Barradas na Fábrica da Viúva Lamego, com Rogério Ribeiro e Mário Rafael.


Colabora na decoração de interiores do edifício da actual sede da Gulbenkian. Fez parte da equipa de Thomas de Mello, no sector gráfico na Feira Internacional de Lisboa.


Em 1970 colabora na "Seara Nova" onde promove edições de serigrafias de artistas portugueses contemporâneos o que lhe dá dimensão internacional.


Cria um atelier exclusivamente consagrado à serigrafia na Avenida Conde Valbom.


Colabora com Júlio Pomar, Vespeira, Charrua, Espiga Pinto. Eduardo Nery. Maria Keil, Francisco Relógio, Jorge Vieira, Costa Pinheiro, Eurico Gonçalves entre outros.


É sócio fundador do Centro Comunicação Visual A.R.C.O. e membro fundador do Centro Cultural de Almada.


Organizou e leccionou cursos de serigrafia através de quase todo o país, destinados a professores de Educação Visual, bem como a animadores ligados às autarquias. No âmbito do intercâmbio com África seleccionou jovens artistas aos quais são atribuídas bolsas de estudo nos principais centros culturais da Europa e deu assistência a bolseiros da Fundação Calouste Gulbenkian.


Em 1993 criou o Centro de Serigrafia António Inverno. Colabora em vários Centros Culturais no Alentejo, promovendo exposições de artes plásticas de âmbito nacional. É professor de pintura, gravura, serigrafia e desenho na Escola Superior de Educação de Beja e brevemente também na de Viseu.

A gravura e a serigrafia, são ambas, métodos de reprodução gráfica.


Qual a diferença?


_Para se fazer serigrafia tem que haver um original e na gravura o original é feito em cima da chapa. Pode haver uma ideia preconcebida para aquela gravura mas a chapa é desenhada na altura.Em Portugal, a gravura tem vindo a desaparecer, para grande mágoa minha porque gosto muito de gravura.


Faz uma pequena pausa como quem desfolha lembranças e continua,


_ olhe, havia um homem que infelizmente faleceu há pouco tempo, para mim um dos melhores gravadores da Europa ou mesmo do mundo, o Bartolomeu dos Santos. Vieram pessoas de todas as partes do mundo para aprender com o Bartolomeu. Ainda existe a Sociedade Portuguesa de Gravadores Portugueses onde ele também trabalhou. Aqui há uns anos os pintores faziam lá os seus trabalhos de gravura. Mas a gravura exige tempo e aquilo suja muito as mãos.


Riu-se, há uma série de factores.


Uma prensa não é muito cara mas é muito pesada, é difícil deslocá-la. Para fazerem as suas próprias gravuras, os artistas têm de ir a Tavira, onde está a prensa do Bartolomeu ou à Sociedade dos Gravadores Portugueses.


Há uma também na Galeria Diferença em Lisboa.A gravura tem que ser feita pelo próprio artista, não é como a serigrafia que pode ser feita por terceiros. Comecei a fazer serigrafia, as coisas começaram a correr bem, vinha gente do estrangeiro para trabalhar comigo. E a gravura foi sendo anulada. Neste momento, dentro das minhas possibilidades tento recuperá-la.


A arte tem que estar obrigatoriamente ligada à liberdade


Há uma relação entre o António Inverno serígrafo e a Seara Nova.Pousa o olhar sobre mim com um sorriso e relata:


_ houve uma altura em que a PIDE destruiu a Seara Nova. Fiz uma edição de 18 pintores para pagar coisas da Seara Nova que era uma revista muito importante, onde escreveu o Mário Soares, o Manuel Alegre, o Soromenho, o Zé Saramago… onde escreveu muita gente. Uma revista muito interessante. E a partir dessas edições comecei a ficar conhecido a nível mundial. Acabo por nascer na Seara Nova. Mas só fiz isso porque era preciso manter a Seara Nova, a PIDE partiu máquinas, partiu armários, partiu tudo…


A arte tem de estar ligada à liberdade?


_Obrigatoriamente à liberdade. Razão pela qual os pintores na União Soviética, desapareciam, fugiam. Não tinham liberdade. E há boa pintura na Rússia, mas tinha muitas casinhas, muitas florzinhas… Tinha que ser tudo muito concreto.O artista nunca se deu bem com a falta de liberdade.Ninguém tem o direito de interromper o meu pensamento. De dizer: ‘tu não podes!’ Um pensamento é sempre criticável. Ninguém é dono da verdade, mas deixem-me ser livre!


Faz uma pausa, olha-me de frente, sorri de novo e continua,:_ agora, infelizmente vivemos num país onde as autoridades políticas não fazem nada pela cultura. Têm medo da cultura, sorri, olhe, o futebol! Não tenho nada contra o futebol nem contra quem gosta de futebol, mas é um tónico que dão às pessoas para terem ausências de pensamento, para nem sequer experimentarem a ter liberdade.E, o que é a liberdade?A liberdade? Olhe, a liberdade não é fazer tudo o que me apetece. Não, não é nada disso! A liberdade é não haver polícias, não haver juízes, não haver fome, não haver miséria. Um homem ter a possibilidade de se exprimir de qualquer forma, seja através da arte ou do que for. E é ter mais respeito pelo semelhante.Portanto a liberdade define-se a partir de valores como o respeito e o livre pensamento.Exactamente!Mas tudo tem um reverso e cada atitude que se comete, uma consequência.Claro!Quando se age livremente pensa-se nas consequências dos nossos gestos e aí está a responsabilidade, não é?


É evidente!


E esta liberdade que hoje dizem que temos, é mentira. E incomoda-me bastante este desprezo pela cultura. Não estou a acusar o ministro da cultura. Sou amigo dele, é uma pessoa muito inteligente, um grande senhor, mas não faz muito pela cultura neste país. Não há condições para isso, nem ele as vai criar.
Quando há cultura, as pessoas lidam umas com as outras de outra maneira.
A cultura é mesmo fundamental?


_É! Pois claro que é!


Porquê?


_Olhe, porque há países com menos recursos naturais que Portugal e no entanto têm um nível de vida superior porque têm melhor nível cultural.A cultura é necessária sim, e constato que só por carolice nossa é que hoje se passam coisas muito interessantes neste país e cada vez mais, fora de Lisboa. Mas essas pessoas que dinamizam esses projectos deviam ser apoiadas. E o apoio nem sempre é dinheiro. As pessoas querem sentir-se compensadas com o seu acto de liberdade de pensamento. O Ministério da Cultura tem a mania de responder: “não temos verba para isso”. Ninguém lhes está a pedir dinheiro e muitas vezes se pedirem é para material que fica ali para outros eventos.


Homenagem em Algezur


Foi-lhe feita uma homenagem no passado dia 2 de Agosto em Aljezur onde pode ser visitada uma exposição fotoducomental, de serigrafias e aguarelas até dia 28. O evento contou com o Alto Patrocínio do Presidente da República. Presentes estiveram cerca de 400 pessoas provindas de diversos lugares do mundo e entre elas, personalidades como Luís Cabral. Na Comissão de Honra, encontram-se nomes como Elísio Summavielle e Gonçalo Couceiro e como os patronos, personalidades como Durão Barroso e Mário Soares. Contou com o apoio de instituições como o Governo Civil de Faro, Fundação Calouste Gulbenkian, Circulo Artur Bual e a Câmara da Amadora, entre outras.
Foi-lhe feita, em Aljezur, uma Homenagem. Qual a sua relação com Aljezur?


:_Gosto muito de andar por ali porque é de facto um ambiente de liberdade com interesse pelo saber. Existem projectos que não contam só com a população de Aljezur que é um concelho pequeno. Há a colaboração da Amadora. Penso que o Ministério da Cultura também vai participar.


A Câmara de Aljezur? O Vereador, o Presidente e o Francisco Oliveira são pessoas abertas. Noutros sítios por onde tenho andado, às vezes perguntam: ‘aquele teu amigo não é de direita? Ou, não é de esquerda? ‘Houve lá uma série de conferências que se chamavam Desconversas, fui eu quem convidou as pessoas e nunca ninguém me perguntou se os meus amigos são de direita ou de esquerda.O vereador da cultura é um grande senhor, sabe muito bem o que quer e tem uma vantagem, quando não sabe, pergunta. O Presidente da Câmara, é um homem que fala com as pessoas, senta-se à mesa com toda a gente, é uma pessoa calma e respeitada.


Em Aljezur sinto-me bem porque há democracia. E aquilo que está mal, procuram fazer melhor, e procuram aprender. E acho engraçado, eles perguntarem às pessoas como é que é.
Mas afinal o que é a cultura?


:_É ter a noção do que se passa à nossa volta. Se houver cultura há informação e poderemos fazer crescer algumas pessoas e atenuar as mágoas e as dores de muita gente. Tem que haver cultura para tudo isso. O mundo não pode viver só com fábricas. E as pessoas que estão na caixa de um supermercado também têm que ter cultura para fazerem mais e melhor, terem consciência e atenderem com alguma delicadeza. Olhe os polícias, um polícia não tem o direito de me tratar mal só porque tem uma farda. Isso não é cultura nem liberdade nem coisa nenhuma. Quando há cultura, as pessoas lidam umas com as outras de outra maneira.
Nem todos os capitalistas são fascistas


A cultura é imprescindível para ter mundo?


:_Claro! Faz uma pequena pausa, olhe, quando estive na guerra, estive na Guiné. Por vezes ocupei-me de explicar aos soldados portugueses afinal o que é a liberdade, o que é a cultura. Mostrar-lhes que para atingirmos a liberdade temos que dar liberdade aos outros. Fui castigado por causa disso! Eu tinha uma boa relação com o chamado inimigo exactamente através da liberdade que eu sentia e queria para os outros. É que as crianças não podem fugir e os velhos também não, ficam no terreno. Era consciencializar os soldados. Muitos abraçaram-me e outros trataram-me mal.


Faz uma pausa.


Sente-se nele uma certa comoção.


:_ Quando o homem tem alguma cultura entende muito bem e eu sempre procurei, dentro daquilo que eu possa saber, ensinar os outros.


Nessa altura já havia quem defendesse a liberdade dos povos e também devo dizer que nem todos os capitalistas são fascistas. Olhe, um grande capitalista que vivia em Lisboa, o Manuel Vinhas entregou-me sacos de dinheiro que eu, ainda jovem, entregava ao Agostinho Neto, ao Amílcar Cabral e a outros.


Nova pausa, com outro sorriso, sereno,


:_ fiquei com muitos amigos, mas também fiquei com inimigos. E os inimigos quem são? São homens que por falta de cultura, por falta de educação, por falta de informação, por falta de uma série de coisas, viam em mim um mau exemplo, não defendia o meu país. Isso é mentira! Eu sempre defendi o meu país! Mas neste sentido: que os outros também sejam livres. Para eu ter liberdade não posso oprimir os outros. Isso foi o meu grande problema e que deixou marcas.


Pausa.


:_ Agora lamento muito que outros homens, que às vezes vão para o poder, e que andaram a atirar pedradas, não para magoar alguém, mas contra um determinado poder, quando lá chegam, fazem exactamente aquilo que condenaram nos outros.


Acha que o poder é corruptor da humanidade dos homens?


:_Acho que sim!Como pode ser educado o homem que vai exercer o poder?Isso é muito difícil, repare, já há polícias para guardarem outros polícias. Já se mandam juízes para julgar outros juízes. Já não se está a acreditar em ninguém. Teríamos que nos educar a todos, a nós próprios, primeiro. Então, a partir daí, poderia nascer qualquer coisa.A cultura é muito vasta, não é só erudita.Com certeza, olhe, por exemplo, devia haver muito mais respeito pelos poetas populares, porque a erudição vem depois.


Artesanato e arte?


:_A arte é uma coisa e o artesanato é outra. Para o artesanato tem que haver muita habilidade, na arte pode não se ser tão habilidoso. Há indivíduos que são muito habilidosos e vivem dessa habilidade, mas a habilidade também não é a mesma coisa que a arte.


E o ultra-realismo?


:_Tem mais habilidade que arte. Por exemplo, encomenda um retrato da sua avó, paga ao pintor, põe na parede e depois convive com aquilo, chega a uma altura em que deixa de lhe dar importância. Os retratistas não ficam na história.Mas o retrato pode ser feito de outro modo.Pode! Olhe, o retrato que o Pomar fez do Mário Soares.


Concorda que o 25 de Abril chegou à Galeria da Presidência da Republica com o retrato do Mário Soares feito pelo Pomar?


:_Sim, sim.


Riu.


:_ Foi muito contestado, não é?

A arte estimula o pensamento do artista e o seu trabalho estimula o pensamento de terceiros?

:_Exacto. Eu posso fazer uma pintura e daí a uns tempos alguém me vir dizer que descobriu isto e aquilo nessa pintura e eu responder: ‘isso é verdade, mas nunca tinha pensado nisso’.O valor é do autor do quadro, não é do habilidoso que o reproduziuIsso significa que perde a propriedade da sua pintura quando acaba a obra? A obra passa a ser propriedade do colectivo?Eu vendo um quadro e esse quadro só deixa de ser meu ou da minha família 75 anos depois de eu morrer. Por exemplo, há aquele quadro de Fernando Pessoa que fez o Almada. O que está na Gulbenkian é uma réplica. O verdadeiro está no Museu da Cidade. Aqui há muitos anos o Jorge de Brito comprou-o e ofereceu-o à cidade. Comprou esse quadro num leilão. O que o Jorge de Brito pagou pelo quadro foi muito mais do que aquilo que o Almada recebeu por ele. Tenho impressão que o Almada recebeu mais da mais valia do que pelo quadro. Existe uma réplica na Gulbenkian, mas o seu valor é do autor do quadro, não é do habilidoso que o reproduziu.O acto de pintar é um acto de solidão?Um pintor está fechado entre quatro paredes, não fala com ninguém mas de propósito. Não se considera um indivíduo que vive em solidão. Mas pintar é um acto de solidão, sim.O Sá Nogueira dizia que um pintor nunca deve estar desacompanhado. Tem que ter sempre um livro aberto, uma revista, uma coisa qualquer, mesmo que seja de pernas para o ar. E depois é a música, normalmente um pintor tem música no atelier.

A pincelada pode ser influenciada pela música?

:_Pode, pois pode. Até as cores podem ser influenciadas pela música.Um allegro pode determinar um quadro cheio de movimento?Sim, pode! A pintura é um acto de liberdade. Um homem é livre de fazer aquilo que quiser quando pega num pincel. Onde aprendi também muito foi com os loucos. Aquela liberdade que eles têm de se soltarem num espaço branco e depois começam a fazer aquelas pinceladas e começam a rir, e começam a soltar-se, começam a subir, a crescer.Há essa solidão e depois também há esse acto de liberdade.
Onde aprendi muito foi com os loucos!
A relação do desaprender de Picasso e o acto do louco que não aprendeu mas que apenas se exprime e a arte em si?O trabalho dos loucos interessa exactamente porque não aprenderam, já são crescidos e fazem as coisas como crianças. Um indivíduo chega a uma certa altura acaba por mecanizar os gestos e os pensamentos, por perder essa espontaneidade que os loucos têm.Como começa um quadro?Prefiro começar pelo caos, ir organizando um caos. Primeiro jogo a tinta para o espaço, depois dou pinceladas de todo a maneira e feitio. Muita gente começa por aí. Depois começo a organizar o caos. Uma das minhas funções é organizar esse caos. Muitas vezes acabo por descobrir no caos coisas que tinha pensado há muito tempo. Tem que ter uma dimensão de equilíbrio e uma dimensão da cor porque as cores também têm uma dimensão.A arte mora no pensamento.
A arte mora onde?Mora no pensamento.A arte não é copiar o que se vê, isso pode ser habilidade. A arte quer transmitir um pensamento, um estado, uma emoção. Por exemplo na minha relação com os toiros na pintura, estou cá em cima na bancada e todo aquele desenho que se desenvolve numa arena, aquelas cores, aquela gente, o próprio desenho da arena, as pessoas ali sentadas e é redondo normalmente. Acho aquilo muito bonito! Aquelas cores lá em baixo, aqueles capotes, o toiro, a areia, tudo aquilo é bonito e tem movimento. A pintura não é uma coisa estática, tem que ter movimento. Esse movimento e toda essa emoção, um habilidoso pode não ser capaz de retratar, um menos habilidoso por vezes busca uma outra solução, faz de outra maneira e torna-se muito mais interessante. Por exemplo, se eu pintasse toiros na Rússia não ia preso, ou se calhar ia porque não há lá toiros, mas eles preferiam que eu pintasse uma casinha, uma jarra, uma criancinha a correr, tinham que perceber o que é que eu estava a pintar. Nada dessa coisa desses estados e dessas emoções. Nada que fosse discutível, que fizesse pensar, e a arte, no fundo é o pensamento. E faz com que as pessoas pensem.

Paula Ferro e Ricardo Claro