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QUEM SOMOS







O Casa Amarela 5B -Jornal Online surge da vontade de vários artistas, de, num esforço conjunto, trabalharem no sentido de criar uma relação forte com o público e levando a sua actividade ao seu conhecimento através do seu jornal online.

Este grupo de artistas achou por bem dedicar o seu trabalho pintorNelsonDias, https://www.facebook.com/pages/Nelson-Dias/79280420846?ref=hl cuja obra terá sido muito pouco divulgada em Portugal, apesar de reconhecido mérito na banda desenhada, a nível nacional e internacional e de várias vezes premiado em bienais de desenho e pintura.


Direcção e coordenação: Maria João Franco.
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contactos:
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Wednesday, March 7, 2012

Rocha de Sousa em destaque








ROCHA DE SOUSA apresenta o seu útimo livro LÍRICA DO DESASSOSSEGO

Pelas 16 horas do dia 17 de Março no Hotel Real Palácio, 115 e galeria Prova de Artista,
rua Tomás Ribeiro LISBOA
apresentação: Prof.Hugo Ferrão
Editora UNIVERSUS









Morri ontem, com a boca cheia de palavras e os olhos tapados de imagens. Na ilusão que me restava, julguei-me renascida, em silêncio, para o suave cuidado dos outros, mortalhas limpas, mãos tratadas, ceroulas descartáveis tendo em conta eventuais incontinências durante a viagem. A vida é reles vista de fora. Lá estava o cartaz com a boneca nua, Agosto rasgado, a cadeira de pau santo com o gato, Clot, oferecido por uma vizinha esquizofrénica, toda arranhada, a boca sempre aberta num choro convulsivo, gengivas de fora, rosadas, pálidas, tumefactas, quatro dentes desalinhados e alguns outros, soltos, no maxilar inferior. Aftas, eu sei, ela sofria muito de aftas, andava todos os dias com um frasquinho de Piralvex na algibeira. Cheirava a alho à sua volta, bafo maior, bagas esmagadas na pedra da cozinha ou raspas sobre raspas para medicar os molhos do bife. O duque, marido não sei de quem, tinha igualmente aquela mania silvestre, presumindo que se defendia assim de suspiros, vampiros, encantos soezes dos males e modas na televisão nocturna, fantasmas promíscuos em casas assombradas, talvez como vinagre nas cenas onde as moscas fustigavam falas ou ombros desnudados. Casas velhas, sombrias e húmidas, casas de velhos trapos, só a Maria tocava no vinagre, ficara com o hábito desde Angola, porque lhe haviam dito que dessa maneira afastaria sempre os mosquitos, os de lá e os de cá. Um país pequeno tem irremediavelmente os seus pequenos mosquitos. E cheiros. Quando abriam a porta, esses cheiros dobravam, urina dos gatos, caca dos cães, indiciação rio apodrecendo na margem direita: apesar disso, ontem mesmo, com gente a entrar e a sair, todos teimavam em fazer de mim uma mulher virtuosa, de súbito com a beleza resgatada, cabelos encaracolados a preceito e uma seda espalhada por cima das mamas moles, barriga inchada, pernas engelhadas. Claro que o cheiro do lodo entrava sobretudo pela janela meio aberta a fim de afugentar o bafio da minha morte, aliás irrelevante se comparado com os perfumes daquelas mulheres magras que tagarelavam nos bancos de madeira, incómodos, gente patética, de ilíacos salientes, outrora dividida pelos amigos do chefe das Finanças, por vezes mais dispersa e pequena, fonte de amantes dos estivadores em Alcânara. Os estivadores mais antigos, aqueles que destilavam um suor vivo, azedo e cálido, todos os que, anos e anos atrás, ainda não haviam sido promovidos a pilotos de máquinas pesadas, fortes empilhadoras, gruas e guindastes, brinquedos que o Clot já telecomandava, metido na almofada para as dores lombares. Que desperdício, a almofada bordada pela minha avó. Ainda vejo as suas mãos recobertas de sardas, um pouco gordas mas de fina agilidade, usando linhas brilhantes que engatava em agulhas de máquina, furando e desfurando um linho bendito, esticado num bastidor de escala amovível.
Se morri ontem, ou na madrugada de hoje, ainda não chegou a hora dos meus amigos, honrados e já com gorjeta, dedicarem um tempo à leitura do meu testamento, uma página vulgar, sem linhas, onde achei por bem escrever algumas vontades, poucas, seguidas do elenco de pequeníssimos objectos de certo valor, memória daqueles anos de ilusão e fome. E as túnicas que absorviam tetas e barriga, um cair até aos tornozelos, romano, imperial, próprio para desenvenenar a vida e a melancolia falsamente cosmopolita de Lourenço Marques, colonial até ao pescoço, com senhoras que arrastavam carregadores ajoujados ao peso das malas. Era uma cegueira pelo saltinho à África do Sul, picando o chão híbrido com sapatos pongteagudos à frente e atrás, certamente brancos, traçados por faixas aos pares, dedos de unhas pintadas, encavalitadados pelo frio que sobrava das piscinas e das normas patéticas, apertadas, publicamente irreprimíveis, instauradas num grotesco espavento de classe.
Quando me lembrei desse comportamento ilusório e mesquinho, reparei de novo na ausência dos meus filhos. Um já é bem grande, outro mais pequeno, ainda alourado, que estuda arquitectura mas não cessa de viajar. É de uma geração ainda africanizada pelas tonalidades do sul, gente das motas, dos carros, castigadora do corpo e emigrando, com a bebida, para temporadas de estudo em aldeias remotas da Índia ou para recolhas de mestrados sobre o desenvolvimento do terceiro mundo. Agora queria chorar e não posso. Talvez eu tenha sido a mãe ausente, sonhando pela pintura a gravidez dos bosquímanos, bebendo e bebendo até saber que jantar me faltava cumprir. Médico, o Ilídio, meu marido, depressa fechou a porta da assistência medicamentosa e o pesado incuprimento de um sexo menos longínquo. Ainda ontem pensei nele. Sentia muito frio dentro de mim e a Europa fica cada vez mais distante das Terras do fim do Mundo ou da antiga Cidade da Beira. Os meus próprios amantes, os mais esbatidos e os que me espreitaram como ornamento, ou estão já mortos ou acabaram por esquecer o nosso melhor tempo abjeccionista. O último marido institucional, a quem estive mais tempo ligada, o Ilídio, voava de congresso em congresso, parava dois dias em Portugal para ver os avôs, e eu quase desaprendera a data (ou as datas) do seu regresso. Ele trabalhava muito. Mas, além disso, já percebera o nome, a quantidade e a qualidade dos meus devaneios. Foi então que me deixei encalhar em cavalheiros de oportunidade, o melhor demasiado activo em ficar com os meus quadros (cada vez menos) e o outro perdido em gentilezas provincianas, capaz de tratar da cozinha e soprando o pior mau hálito que se possa imaginar. Era
tonto, comunista, ocupado, deixou-me de pé à esquina de Paço de Arcos, apropriadamente, com casa e sem um cêntimo. Como poderia apelar aos meus filhos? Parecem nem sequer usar telemóvel, nem papel, nem palavras. O que esteve na Dinamarca comprou uma mota Honda e levou para casa uma moça de belo recorte. Diz que essa é só uma parte da base para o sucesso. E se calhar tem razão? O outro, mais novo, desaprende o português e escreve mails sem conta para terras bem longe da Nova Zelândia. Fala pouco, fala de longe, talvez seja timidez. Chorar é um remédio precário e por vezes não passa da mentira que acumulámos dentro de nós. Mentir, aqui, é
dizer a verdade. Enfim, eles estão lá, eu morri aqui.

Não vejo nada. Ou as imagens que vejo não pertencem ao quadro que me rodeia. Sombras, o punho de uma camisa. Murmúrios sempre, mas isso já me acontecia em vida. Ouvir nunca foi o meu forte, mas era sobretudo uma questão de conveniência e de fraca auto-estima. Há um ruído mais espesso longe deste espaço: julgo perceber que se trata de manobras no porto, atracamentos, guindastes, torpor de motores. Eu oiço sobretudo com os olhos e cheguei porventura áquele instante em que não posso escolher as imagens e o sentido delas. Estou a lembrar-me do Clot, coitado, e nem sei se fugiu, se alguém o terá adoptado. Era um grande companheiro e dormia comigo numa cama japonesa, emplumada. Também não posso expelir as palavras que me enchem a boca, apesar de pensar que são minhas, testamentárias ou lidas em páginas azuis de despedida. Como nos filmes antigos. E os olhos, em nesga, talvez atados por Deus a uma cegueira como aquela que Saramago inventou, apenas captam movimentos preguiçosos, o fundo ilusório da caverna de Platão, entre fracturas onde passam gaivotas e um vago jardim com grande árvores e muitos pombos tratando da vida. É pouco para fechar uma vida ou mesmo a porta da rua de qualquer casa.
Há pouco, num zumbido de orações, vieram tratar-me do caixão. A minha vontade era dizer-lhes que não fizessem nada, que me deixassem ali, num grande sossego, tapando tudo, devagar, incluindo a descida à terra e o encobrimento desta cápsula de madeira envernizada de perfumes. Se calhar é disso que se trata, um ranger de pregos arrancados não sei donde, chaves de fendas chafurdando no encaixe das pegas metálicas. Cristo teria apreciado um serviço assim, alguém que logo o descravava da cruz, lhe desenrolava as cordas, dizendo-lhe ao ouvido que ninguém sabia do lugar para onde o levavam: aó seria lavado, curado e induzido no sono. Mais tarde, não sei exactamente em que altura, houve quem falasse em ressurreição, os mortos resgatados do céu ou do inferno, os santos redimindo as suas faltas, a sua vida inicialmente idiota, revendo o mundo, olhando os seus companheiros de outrora. Nãi sei bem, tanto mais que morri ontem. Mas este trato com o céu, trajectos entre o além e o aquém, tudo isso me faz confusão, não me deixa pensar nem fazer as últimas escolhas. Não vejo os mortos, reinvento os familiares. A minha mãe podia representar, e bem melhor, o papel da senhora de Fátima, com a vantagem de unir o sentido dos segredos à bondade humana oferecida aos povos deslocados de África. Meu pai, entretanto atarracado e com uma orelha cortada, como van Gogh, desenhava casaa e ralhava comigo, dizendo que eu não ligava nada ao estudo e me tornara leviana, com desejos compulsivos, egoista, incapaz de aperfeiçoar desenhos, cópias, rascunhos, pinturas. O meu irmão, sonso e tímido como um herdeiro sem trono, juntava os bicos dos pés e escondia o sorriso que lhe fazia tremer os lábios. Olhos redondos, amaciados, sonsos como os da Gioconda.

Risquei papéis durante toda a minha vida. Quase até ontem. Não tinha forma de os riscar mais e bem. Por isso os rasgava em muitos pedaços, acabando mais tarde por colar esses formas umas à outras, umas sobre as outras. E tudo me parecia o interior da minha cabeça, sombras, escovas e rolos para o cabelo, verniz das unhas, dedos sangrando, os espinhos que ornamentaram a cabeça de Cristo, pequenos animais a andar de lado, como os caranguejos, e as conchas e a água dourada, e as pedras roladas, coisas afinal femininas, apesar de meu pai insistir no estado em que me via, no desapego de mim — mulher excessiva e masculina na aprendizagem da sexualidade, atravessando flores e a própria família, óbvio ramo que não era dele, viera dos sonhos e lendas de minha mãe, dourada sempre, lenta, de olhos azuis, lenta e triste, penalisando-se de coisas que o destino já apagara, bordados, linhas, aguadas, alunas como filhas debruçadas sobre os bastidores redondos, a picar mensagens relativas à benaventurança e ao direito das gentes à vida e à paz. Parece uma visão de anjo mas não é — e ela não tinha asas, teria mais tarde, presumo, mas acabou por morrer, incompreendida, com as pernas roxas, o coração enleado em defesas orgânicas, vasculares, enquanto o fluxo diabético, abissal, se foi tornando incontrolável, a par, por fim, da falência dos orgãos estruturais.

Estou a caminho do cemitério, não sei onde, mas estou morta e sinto-me tranquila. Os anjos são masculinos ou não têm mesmo sexo? Minha mãe percorria as senzalas e procurava, de uma conversa vulgar, criar sinais legíveis sobre a vida, a família, os filhos, a história dos povos, o seu papel no mundo. Era um catoliscismo sem pompa nem circunstancia, não dependia da missa nem de outras liturgias. Talvez ela tivesse reencarnado de um verdadeiro missionário.
Agora sim, estão a baixar o caixão, nave estreita e em madeira, que entra na terra fresca da cova e aí fica, autónoma. Choram não sei bem onde. Pasadas de terra começam a cair sobre o meu rosto protegido. Mas é como se a minha boca fosse bloqueda, completamente entulhada de papéis e terra. Nos olhos, agora, só passam, contra o escuro, imagens fragmentadas de gente conhecida, familiares, tios, primos, amigos correndo, ao longe, como se holofotes rasgassem a noite e mostrassem, só por instantes, um rosto espantado ou um animal a correr. Nesse minuto nunca vi nenhum anjo, nem pessoas que conhecera através de velhos retratos.
Pela primeira vez em muitos anos, não sinto o corpo. Esta suspensão é irrepreensível. Será este o lado sensível da alma? Apenas tenho a certreza de que morri ontem. Ou hoje de madrugada.





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Rocha de Sousa é hoje um dos maiores escritores portugueses configurando uma poética muito própria que faz da sua obra escrita um valor singular e único no panorama literário.


Importante,assim,se torna conhecer e reconhecer a "escrita" deste Grande Homem da nossa cultura.

2 comments:

Miguel Baganha said...

Concordo em absoluto,Maria João. Há, cada vez mais, uma necessidade urgente da literatura portuguesa (qui ça do mundo) conhecer e dar a conhecer o valor insofismável deste singular autor: mais cedo ou mais tarde, Rocha de Sousa é um nome que ainda há-de figurar entre os maiores romancistas de sempre. só espero que mais cedo.

Um grande bem haja aos que se esforçam por divulgar e resgatar, do já habitual ostracismo, os artistas intrínsecos como acontece aqui neste blog.

Abraço, Miguel Baganha

MJF said...

Obrigada,Miguel.
Só tenho pena que não consiga mais informação.

Aproveito para fazer apelo a quem queira enviar-me informação de qualidade para poder enriquecer este blogue